Nesta série de 4 artigos, vamos explorar o perfil profissional da indústria do futuro e, fazendo um paralelo com as nove tecnologias habilitadoras da indústria 4.0, vamos discutir nove atitudes habilitadoras que compõem o mindset da empresa digital.

Fala-se muito da indústria 4.0 e das tecnologias que permitem tais avanços nos processos produtivos, as chamadas “tecnologias habilitadoras”. Quanto aos profissionais que vão trabalhar nessa nova indústria, em um primeiro momento, pode parecer que a necessidade de capacitação e desenvolvimento de competência limita-se a dominar essas tecnologias. Ou seja, basta desenvolver as competências técnicas nas novas ferramentas e sistemas e está resolvido. A história mostra que não é bem assim.

A digitalização dos processos leva à mudanças nas regras de negócio, nas relações de poder, na demanda e características dos recursos humanos. Por trás destas mudanças existe também mudanças de mindset que vão muito além de dominar um novo software. A contribuição que esperamos com esse artigo é fazer um paralelo entre as tecnológicas 4.0 e as competências 4.0 do profissional do futuro.

Tecnologias 4.0 x Competências 4.0

Tecnologias 4.0 Competências 4.0
Cybersegurança Resiliência
Sistemas integrados Saberes integrados
Internet das Coisas Trabalho em rede
Computação em nuvem Cidadão do Mundo
Robôs autônomos Autonomia
Realidade aumentada e virtual Realidade e ilusão
Simulação Capacidade de abstração
Manufatura Aditiva Processos ágeis, prototipagem
Big Data e Analytics Capacidade de Análise crítica

Esse primeiro artigo é para refletir um pouco sobre como e porque um novo mindset precisa ser desenvolvido. Nos próximos 3 artigos, serão discutidas em cada um deles, 3 tecnologias e 3 competências.

Exsto Bancadas Didáticas para o Ensino

A sociedade se organiza conforme os meios de produção. Essa é uma afirmação de Marx que é difícil refutar, entretanto é possível aprimorá-la dizendo que os meios também se organizam conforme a sociedade, num sistema circular. Todo negócio é também uma organização social, daí ter uma cultura organizacional, composta de papeis, artefatos e ritos. Toda vez que o processo produtivo sofre uma grande mudança, há também uma grande mudança no perfil dos recursos humanos.

Senta que lá vem história

Henry Ford

É atribuída à Ford a expressão “Por que toda vez que contrato um par de braços um cérebro tem de vir junto?”. Sem mimimi, essa expressão do Ford, antes de ser vista como a de um explorador sem coração, deve ser colocada no seu contexto: na fábrica de Ford, gente pensando seria uma catástrofe. Ford pode ser situado na segunda revolução industrial, que se caracteriza pelo início do emprego da eletricidade e motor à combustão (tecnologias) e da linha de produção (processo produtivo). A linha de produção, da qual o senhor F. foi um dos idealizadores, era baseada no conceito de dividir o trabalho em atividades mínimas, alocar um funcionário focado em cada atividade, o funcionário não se desloca, o produto se desloca e vai sendo agregado, até o produto final. Variedade de produtos baixa, escala como nunca se viu. Especialização brutal, onde você poderia passar anos apertando o mesmo parafuso.

Do ponto de vista do trabalhador, deveria ser um trabalho miserável seguir um processo definido por outro, anos a fio, sem questionar. Mas esse processo reduziu enormemente os custos produtivos, aumentou o acesso a produtos que vão de carros a remédios e alimentos, permitiu o desenvolvimento de economias fortes até hoje. E absorveu um grande contingente de trabalhadores não qualificados.  Isto só se fez possível porque a linha de produção permitia, literalmente, empregar qualquer um. Quando Ford fundou sua companhia, apenas 11% das pessoas frequentavam ensino médio, ou seja, não havia a menor chance de trabalhadores especializados e qualificados na quantidade necessária para dar impulso à indústria nascente. A linha de produção não era só uma solução de eficiência produtiva, era também uma solução de gestão de (falta) de conhecimento.

Dando um passo atrás, a primeira revolução industrial, alavancada pelo uso das máquinas a vapor, permitiu potencializar o trabalho humano. Em vez do processo artesanal, onde conhecimento e execução estão estritamente ligados à figura do artesão, a produção industrial permitiu separar o conhecimento especializado, científico e sistematizado do engenheiro, da força de trabalho e capacidade de execução do operário. Só isso já deu um ganho produtivo relevante, e demorou 100 anos para pensarem em otimizar a produção com processos e gestão. Esses eventos, na segunda revolução, introduziram as técnicas de administração e a burocracia. Se o trabalhador de 1800 precisava saber pouco e, se pensasse, era bônus, para o trabalhador de 1900 melhor que não pensasse. O produto e o processo já haviam sido pensados, por especialistas, melhor não questionar. Obediência, padronização, homogeneidade definiam o mindset. Não precisamos lembrar quando o sistema educacional atual foi criado…

A terceira revolução foi mais silenciosa. Na técnica, a introdução da eletrônica e informática na fábrica deu impulso à automação. Por outro lado, métodos mais flexíveis e eficientes de gestão (sistema Toyota de produção e toda a onda lean) passaram a ser usados, não só porque a tecnologia permitia, mas porque o perfil do trabalhador também mudou. Quase um século de investimento em melhoria na educação permitiu compartilhar a gestão, ao menos em parte, com os operários. Desculpem desfazer algumas fantasias, mas processos de melhoria contínua, a organização advinda do 5s, qualidade total, rotatividade de funções e autonomia nas células produtivas exigem um trabalhador com nível de educação e civilidade, aplicar isso na fábrica do Ford em 1900 não funcionaria nunca. Mas funcionou a partir dos anos 60, nos países desenvolvidos e, dos anos 80, no resto do mundo como um todo.  

Tá, e daí?

E nos nossos tempos? Bem, fica fácil observar que a cada revolução o número de pessoas empregadas na produção se reduz, pelos ganhos de eficiência. Além disso, o nível de qualificação sobe: na primeira revolução, qualquer um vindo do campo poderia ser empregado no processo desde que não arranjasse muita encrenca. Na segunda, obediência, padronização e docilidade exigiam um mínimo de educação formal, pois qualquer desvio faz a linha de produção parar; mas não se exigia muito mais que saber ler. A terceira revolução demandou pessoal com mais senso crítico, comprometimento com seu empregador, bagagem técnica e capacidade de acompanhar os avanços da tecnologia. O que se espera do profissional para a quarta revolução? É o que pretendemos discutir nos próximos artigos!


Artigo escrito por: José Domingos Adriano
Fundador e CTO da Exsto Tecnologia. É investidor-anjo em algumas startups. Formado em engenharia de telecomunicações, tem especialização em gestão de projetos, MBA em automação industrial e cursa atualmente mestrado em telecomunicações. Suas áreas de interesse incluem inovação, empreendedorismo, educação em engenharia.

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Escrito por exstotecnologia

A Exsto Tecnologia atua no mercado educacional, desenvolvendo kits didáticos para o ensino técnico e tecnológico, nas áreas de eletrônica, elétrica, automação, telecomunicações, energias renováveis e outros.

2 comentários

  1. […] Em meados do século XX, a tecnologia se desenvolveu mais rápido e o surgimento de transistores e circuitos integrados como microprocessadores e depois microcontroladores, forneceram as condições necessárias para o surgimento de robôs industriais voltados a automação de processos. Clique aqui para ler o artigo sobre as fases da indústria. […]

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  2. […] Saberes integrados e Trabalho em Rede.Ainda não leu o primeiro artigo? Melhor dar uma olhada aqui […]

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