A Indústria 4.0 exige um Currículo 4.0

Nos negócios do futuro, não só industriais, mas todos que passam por um processo de transformação digital, é necessária uma formação que não só reconheça a complexidade dos problemas e das tecnologias mas que esteja impregnada deles. Isso impacta no currículo no sentido currículo vitae e no sentido de grade curricular. E não estamos preparados para isso.

Nas áreas ligadas a indústria fala-se muito nesses tempos em “Indústria 4.0”, mas expandindo esses conceito para todas a áreas de negócios e das nossas vidas, podemos adotar o termo mais amplo “transformação digital”. E por transformação digital estamos entendendo o uso maciço de TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) em todos os aspectos de negócios nas mais diversas áreas além da indústria, como serviços, agricultura, mercado financeiro, gestão pública e educação. Estamos falando do uso de tecnologias de ponta como Inteligência Artificial, Aprendizado de Máquina, IoT, Big Data, Robótica, Simulação, Manufatura Aditiva, Drones, 5G, e por aí vai. Mas, o mais importante: TUDO JUNTO E AO MESMO TEMPO. É aí que a coisa fica complexa.

A forma como o conhecimento se organizou no mundo moderno, a partir do Iluminismo, foi através da divisão dos saberes em áreas cada vez mais específicas. Dentro de cada área, primeiro o pesquisador e depois o profissional, focam em conhecer tudo o que se tem para saber “do seu quadrado”. Ao seguir essas regras a pesquisa científica teve um grande avanço e resultou na especialização dos saberes. Como método analítico (uma ferramenta para compreender como algo funciona) é fantástico e válido até hoje. O efeito colateral, no entanto, foi a fragmentação dos saberes a tal ponto que não conseguimos mais, de forma espontânea, relacioná-los. Não conseguimos relacionar os saberes de forma sintética (quando é necessário criar algo novo). Enquanto os problemas são simples, essa abordagem tem sucesso garantido: quanto mais especializado numa área, melhor eu resolvo os problemas daquela área. O problemas é quanto os problemas se tornam complexos e as soluções simples já não resolvem mais…

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Aqui é preciso diferenciar simples, complexo, complicado e simplista. Simples é tudo o que tem relação de causa e efeito claras, as coisas funcionam de forma linear (o resultados são proporcionais às causas), são invariantes no tempo (ao longo do tempo, as coisas comportam-se mais ou menos da mesma forma); é o mundo “mecânico”, das máquinas e da engenharia em geral, das coisas simples como pontes, motores e computadores. Complexo (do latin complexus, “o que é tecido junto”), que não é complicado, é o cenário onde as relações de causalidade são múltiplas (um efeito tem múltiplas causas ponderadas), existe realimentação, os resultados não são lineares (pequenos estímulos podem gerar resultados desproporcionais), é volátil ou variante no tempo (o comportamento muda de um momento para o outro); é o mundo dos sistemas, da economia, da biologia, da ecologia, das coisas complexas como mercados globais, comportamento do consumidor e a mente humana. Complicado, por sua vez, é algo confuso, pouco claro e de difícil entendimento. Ser simplista é quando se olha para o cenário complexo e tenta-se ingenuamente aplicar nele as regras de um cenário simples.

Lá do século XIX, na primeira revolução industrial, com cadeias produtivas fechadas dentro de países e regiões, mudança lenta, comunicação lenta, pouco diversidade de produtos, pequena concorrência em nível local, de uniformidade cultural numa data região e pouca troca cultural com outras regiões, de modos de governos autoritário centralizados, era um mundo de problemas e soluções simples onde reinava o especialista. Nosso sistema educacional foi criado nessa época.

Já hoje em dia, o cenário é outro: cadeias produtivas internacionais, mudança acelerada, comunicação mundial instantânea, enorme diversidade e oferta de produtos e soluções, alta concorrência em nível global, pluralidade e choque de culturas, democracia em cheque. Um mundo complexo e líquido. E nosso sistema educacional continua o mesmo.

Para esse desafiador cenário atual é que a transformação digital vem trazendo tecnologias que, ao mesmo tempo que se propõem a solucionar os problemas, criam novos desafios (uma relação de causalidade típica de um sistema complexo). Para fazer frente a essa complexidade, as diversas tecnologias devem trabalhar de forma conjunta e colaborativa. Isoladamente, robôs, redes de comunicação, simulação e softwares de gestão não são novidades. Mas quando eu uso redes para colher dados em tempo real do meu robô para alimentar uma simulação que prediz o comportamento da linha, de forma que meu sistema de gestão tenha inteligência para otimizar os processos ou prever problemas, aí estou falando de indústria 4.0, de verdade.

Grade curricular 4.0

Os problemas atuais e as tecnologias para solucioná-los são multidisciplinares por natureza. Portanto, qualquer educação que não seja multidisciplinar está fadada a fracassar no processo de formar profissionais para o mercado de trabalho e cidadão para o mundo. Vejo o interesse crescente em temas de indústria 4.0, mas as instituições muitas vezes estão prisioneiras de uma grade curricular (trocadilho inevitável) que divide e separa o que deveria ser tratado junto. Assim, para formar o profissional do futuro, primeiro é preciso mudar o mindset de especialização em caixinhas e trabalhar um mindset multidisciplinar, desde a primeira matéria, desde a primeira aula, na concepção do programa curricular. É preciso abandonar a meta do especialista que rode nos trilhos de sistemas simples para criar um multi-especialista capaz a surfar nos sistemas complexos.

Sendo pragmático, é necessário adotar uma abordagem multidisciplinar, e para isso metodologias como aprendizado baseado em problemas e aprendizado baseados em projetos são ótimas ferramentas. Pois os problemas e projetos do mundo real vem com tudo junto e misturado mesmo. Também é preciso repensar a infraestrutura. Separar sala de aula de ambientes de experimentação, afastando teoria da prática, já há muito tempo não faz sentido. Os recursos e equipamentos didáticos devem permitir aplicar a multidisciplinaridade, permitir a conectividade e a interação. Deve haver flexibilidade para que o aluno possa explorar as práticas sobre diferentes enfoques e diferentes graus de conhecimento.

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Curriculo Vitae 4.0

E como ficam nossos currículos vitae? No mundo do especialista, um técnico de uma área qualquer, faria engenharia nessa área, depois uma pós nesse mesmo tema, vários cursos na sua área, focando num seguimento cada vez mais específico. Para um mundo complexo esse profissional não é mais solução, é problema. Sua super especialização o deixa míope, senão cego, para problemas e soluções que não estejam na sua área de especialidade. Quem quiser montar um cenário de catástrofe certa, é só agrupar esse especialista junto com outros da mesma área em um departamento e colocar para trabalhar com outros departamentos igualmente especializados através de um sistema burocrático e hierarquias rígidas. Graça aos deuses, isso quase nunca acontece, não é?

Um bom currículo profissional para a indústria 4.0 e para o mercado do futuro mostra multidisciplinaridade na busca de formação. Mostra familiaridade com as tecnologias mais atuais, sem precisar se especializar em todos. Especialização em uma área não é ruim, desde que haja dedicação em manter uma visão abrangente com formações em área diversas. E vale lembrar que a velocidade da mudança coloca um prazo de validade em toda especialização. A pergunta não é “qual é a sua área”, é “qual a sua área hoje”. Quando se coloca esse profissional (com forte formação em algumas áreas mas com visão abrangente de várias outras) junto com outros parecidos, dificilmente teremos currículos iguais, porque as trajetórias se tornam únicas. Assim temos times verdadeiramente multidisciplinares onde a visão diversas de quem trabalha junto são complementares na compreensão dos cenários complexo. Com menos burocracia (muito da qual pode ser otimizado com uso de tecnologia), comunicação e tomada de decisão facilitadas por uma hierarquia mais plana, aumentam as chances de sucesso nesse cenário de incertezas.

Artigo escrito por José Domingos Adriano
Engenheiro de Telecomunicações pelo INATEL
Fundador e CTO da Exsto Tecnologia desde 2001

Especialista em Gestão de Projetos (FAI), MBA em Automação (Poli/USP), cursando mestrado em Telecomunicações (INATEL). Atuou em todas as fases de desenvolvimento de produtos, da concepção junto ao cliente a implementação em hardware e software. Possui experiência em gestão de projetos e de empresas de base tecnológica. Já deu aulas em graduação e pós-graduação em engenharia.

 

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A Exsto Tecnologia atua no mercado educacional, desenvolvendo kits didáticos para o ensino técnico e tecnológico, nas áreas de eletrônica, elétrica, automação, telecomunicações, energias renováveis e outros.

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